A cólica fisiológica do lactente é definida como um transtorno funcional.

Ou seja: não há evidências de uma doença acometendo o bebê em questão.

É uma ocorrência muito comum na população pediátrica, sendo motivo de muita preocupação por parte dos familiares e cuidadores.

Os pais associam o choro excessivo do lactente como algo que possa estar representando um problema mais grave relacionado à saúde do seu filho.

Isto gera muita angústia e dúvidas, quanto aos cuidados e atitudes que devam ser tomadas para resolver o problema.

É comum os lactentes nas primeiras semanas de vida apresentarem crises de choro?

Sim, isso é comum! Em 28 estudos de revisão, que levaram em consideração as horas de choro e o resmungo do lactente saudável na 6° semana de vida, a média de tempo ficou entre 117 e 133 minutos.

Isso é, cerca de 2 horas por dia, decrescendo para uma hora por dia entre a 10° e a 12° semana de vida do nenê.

Como definir a cólica fisiológica do lactente?

Sociedades internacionais de gastroenterologia pediátrica desenvolveram critérios para definir os transtornos funcionais do trato digestivo.

Estes são os critérios de (Roma IV) para definição da cólica do lactente com os seguintes parâmetros.

Para avaliação clínica, deve incluir todos estes itens:

Lactente: 5 meses de idade quando os sintomas começaram e desapareceram.

Períodos prolongados e recorrentes de choro, incômodo ou irritabilidade reportados pelos cuidadores que ocorrem sem causa aparente e que não podem ser evitados nem resolvidos pelos cuidadores. Termina de forma espontânea.

Sem evidências de déficit nutricional, febre ou alguma doença.

De que forma a cólica fisiológica do lactente se apresenta?

A cólica traduzida por choro excessivo tem início de modo abrupto e, em geral, ocorre no final da tarde, sem aviso prévio.

O bebê pode estar até mesmo desperto ou somente dormindo, com boa aparência, e começa a chorar de forma intensa e forte.

Bebê com cólica chorando: desconforto deve ser tratado com calma

O nenê fica com as mãozinhas fechadas, o rosto ruborizado e chora de modo contínuo.

Ele não se acalma muito com as manobras de consolo, apresenta alguns intervalos, poucos minutos com menor intensidade de choro, intercalados com longos períodos de desconforto.

O processo, muitas vezes, chega a demorar quase três horas e termina de maneira brusca.

Passada a crise, o lactente fica bem, mama normalmente e dorme bastante no período noturno. 

Como a cólica do lactente se apresenta de acordo com a idade do bebê?

Cerca de 18% dos bebês apresentam cólicas do lactente com 1 mês e meio de vida, caindo para 10%, quando próximo dos 3 meses de idade, e apenas 0,6% acima dos 4 meses de idade.

Não há diferenças quanto à prevalência, quando é levado em conta o sexo da criança, se toma leite materno ou fórmula, nascidos a termo ou prematuros.

A ocorrência de cólica é maior no primeiro filho e entre nascidos gemelares.

O que determina a cólica do lactente?

A real etiologia da cólica do lactente é desconhecida, porém os autores acreditam que ocorra uma soma de fatores que envolvem aspectos gastrointestinais, biológicos e psicossociais.

A interação dos mesmos com o sistema nervoso central parece modular a ocorrência e a intensidade da cólica.

O estresse dos pais pode influenciar na prevalência e na intensidade da cólica do bebê?

Há uma interação complexa entre fatores pré e pós natais, grau de ansiedade dos pais e dinâmica familiar, que interagem no sentido de oferecer maior prevalência de cólica do lactente.

Quanto mais os pais ficarem aflitos para consolarem o nenê, maior será a intensidade e a duração do choro em questão.  

É preciso, portanto, tentar manter a calma, dentro do possível!

Fatores gastroenterológicos podem estar envolvidos na cólica do lactente?

Entre os fatores gastroenterológicos citados deve-se lembrar, técnicas inadequadas de alimentação que incluem a subalimentação com oferta inadequada, a superalimentação com ofertas excessivas, erros técnicos durante o aleitamento natural e inadequação de bicos de mamadeira e preenchimento dos mesmos quando da utilização de fórmulas.

A alergia à proteína do leite de vaca pode ser determinante de cólicas, mas dentro de outro contexto, correspondendo a um diagnóstico diferencial e não integrante da cólica funcional do lactente.

Bebê com cólica toma mamadeira

A intolerância à lactose não é igualmente vista como parte determinante do problema em questão nessa faixa etária. 

A imaturidade do trato gastrointestinal conjugando digestão incompleta de carboidrato, com excessiva formação de gases parece ocorrer em subgrupos de lactentes com cólicas, porém os resultados não são consistentes quanto a real relevância desse fator.

Muitos lactentes com cólicas exibem alterações na microbiota nas primeiras semanas de vida, com diminuição da população de bactérias protetoras, tais como; bifidobacterium sp e lactobacilos acidophyllus, provocando aumento da fermentação, algum grau de inflamação e também a ocorrência de cólica.   

Há fatores biológicos que envolvem alterações de interação entre os sistemas nervoso entérico e central representando uma disfunção neuro-humoral transitória por imaturidade.

Observa-se secreção de mediadores e substâncias que determinam cólicas e alteram o padrão de sono dos bebês.

Avaliação clínica e laboratorial

O lactente com apresentação de cólica funcional não deve ser submetido a exames laboratoriais ou de imagem, quando os dados clínicos já definem a situação em questão.

Os exames só devem ser solicitados em quadros atípicos, principalmente em lactentes que apresentam dificuldades alimentares e com repercussão nutricional, ou seja: suspeição de outros diagnósticos envolvidos.

A avaliação clínica deve atestar um lactente saudável e que venha se desenvolvendo bem, apesar da ocorrência das crises de cólicas abdominais.

Fora do período de choro, a ingestão alimentar deve ser referida como normal, sem que sejam descritas anormalidades na sucção e deglutição.

Embora possam ocorrer regurgitações do lactente adicionalmente, há um histórico negativo para presença de náuseas e vômitos.

O lactente deve apresentar dados evolutivos de ganho de peso adequados, ter um aspecto saudável e exame clínico satisfatório.

Do mesmo modo, frequência urinária e volume da mesma devem ser normais.

As fezes, nesse período, são moles e ejetivas, com alguma presença de muco. Não deve ocorrer sangramento nas fezes.

Tratamento da cólica do lactente

“O aspecto mais importante é passar aos familiares o conceito de que não há um tratamento ‘ideal’ ou específico para tal processo, porém a natureza da mesma é benigna”, explica o pediatra Mauro Toporovski.

“O suporte aos pais e familiares é de vital importância e cabe ao pediatra promovê-lo”, diz o médico gastroenterologista.

O Dr Mauro em seu consultório na Clinica de Pediatria Toporovski: O suporte aos pais e familiares é de vital importância e cabe ao pediatra promovê-lo

O Dr. Mauro destaca ainda. “As cólicas são comuns e geralmente desaparecem, de forma espontânea, entre os três e os quatro meses de idade. Garantir que a criança não está doente. Deve ser combinado com os pais um acompanhamento frequente até que a situação fique resolvida”, ressalta.

O especialista continua. “A educação de que a cólica não é causada por algo que eles estão fazendo ou não. Isso não significa que o lactente acometido os esteja rejeitando”.

O Dr. Mauro Toporovski diz também que reconhecer que a criança é difícil de acalmar e que os pais sabem que ela está fazendo o melhor que pode. Isso é essencial para impedir que os pais ou seus cuidadores se sintam como se tivessem falhado.

Outras informações muito importantes elaboradas pelo médico são.

Fornecer dicas de técnicas para acalmar o bebê; incentivar os pais a fazerem pausas ou revezamento na assistência do bebê que chora com o auxílio de amigos ou outros parentes especialmente nos dias ou horários mais trabalhosos, evitando sobrecarga física ou emocional para os pais; reconhecer que sentimentos de frustração, raiva, exaustão, culpa e desamparo são normais.

Técnicas de alimentação e de consolo

Deve-se estar sempre atento para situações de hiperalimentação: o bebê chora e a mãe consola no peito (em aleitamento natural), ou oferece sucessivas vezes a mamadeira (alimentação com fórmula).

É importante preencher o bico da mamadeira evitando o excesso de deglutição de ar nas mamadas. Há bicos com dispositivos que diminuem a ingestão de ar durante a deglutição.

O pediatra deve organizar com os pais um esquema de consolo para as situações mais críticas de choro.

Bebê com cólica dormindo de bruços: pais devem receber orientação do pediatra

“As mesmas devem ser executadas de acordo com uma combinação prévia e as mudanças de atitudes devem ser pautadas a cada intervalo de tempo, fixando por exemplo, algo em torno de 10 minutos para cada atitude”, orienta o Dr. Mauro Toporovski.

São mais recomendadas com maior frequência: uso de chupeta, passeios de carrinho, segurar de encontro ao corpo abraçando o lactente; balançar suavemente; banho morno; bolsa de água morna no abdômen; técnica de enrolamento (por exemplo, o cueiro) e estímulos sonoros com sons de mesma frequência (os chamados “white noises”).

Modificação de fórmula

Muitos lactentes com cólicas acabam sendo submetidos a várias modificações de fórmulas, às vezes de forma intempestiva, sem critérios ou recomendação do pediatra.  

Fórmulas para alergia alimentar, à base de soja e com maiores teores de fibra não trouxeram benefícios adicionais no manejo da cólica do lactente.

Em lactentes em aleitamento materno (natural), alguns ensaios utilizam dieta hipoalergênica para as nutrizes, promovendo exclusão de leite de vaca e derivados, soja, ovo e oleaginosas.

Até o momento, as publicações não demonstraram efeitos benéficos na cólica do lactente, quer na intensidade ou em sua prevalência.

Os resultados foram positivos apenas naqueles que apresentavam alergia alimentar como diagnóstico de base e não cólica fisiológica do lactente.

Não há bases científicas para ministrar enzima lactase para auxiliar a digestão da lactose nessa faixa etária, já que somos mamíferos e, nos primeiros meses de vida, os bebês têm altas concentrações dessa enzima no intestino.  

Medicamentos

Dimeticona: embora seja uma droga relativamente segura, a ação na cólica do lactente é flutuante, pouco consistente na maior parte dos estudos.

Algum subgrupo de lactentes responde, mas de forma temporária e não consistente, com alívio da distensão gasosa. 

Ervas medicinais: o uso, muito popular, de chás de ervas medicinais ou mesmo soluções das mesmas não demonstraram igualmente resultados consistentes.

Medicações homeopáticas: não são recomendadas para o controle de cólicas dos lactentes. Os resultados não foram satisfatórios nos estudos controlados e há evidências de possíveis efeitos tóxicos com componentes dos compostos que incluem: etanol, propanol e pentanol presentes em alguns extratos.

Acupuntura e técnicas de manipulação: os resultados em relação a acupuntura, quirodactilia, massagens e outros tipos de manipulação que produzem relaxamento não demonstram nenhum efeito adicional benéfico para cólicas nessa faixa etária.

Probióticos: embora exista algum grau de disbiose em muitos lactentes, produzindo aumento de fermentação e produção gasosa, o emprego do L. reuteri DSM 17938 só demonstra efetividade em casos de aleitamento natural e não nos que recebem fórmula.

A redução é discreta, em torno de 25 minutos no tempo total de choro, após 3 semanas de uso. A utilização universal de probióticos na cólica do lactente tem sido alvo de reavaliações. 

 

Clínica de Pediatria Toporovski: (11) 3821-1655 

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